“Planetario I”
Performance coletiva de Jorge Restrepo,
Com arte-som de
Jorge Antonio Espinosa, documentação
O que habrá pensado Atlas, o ser mitológico a quem se fez a brincadeira de mau gosto de ter que soportar no seus hombros o peso da Terra? Ninguém de nos sente responsabilidade alguma pela rotação do planeta no seu eixo, nem sentimos que temos influencia no seu trajeto ao redor do Sol.
Num ambiente de rigor académico; o qué poderia estar procurando um professor de Recursos Humanos ao tirar a um auditório de alunos de suas rotinas e seus uniformes, para manter no ar um monte de bolinhas pretas de plástico?
“Planetario” coloca nas maus de cada aluno de um grupo de estudantes da Universidade Zamorano três de essas bolinhas. Durante uma semana os alunos familiarizan-se com o peso, a sua forma e voltam-se hábiles en manter-las no ar lançando-as e pegando-as uma e outra vez. Ao final de essa semana a obra culmina no salão de clase no qual, durante os quatro minutos de som composto especialmente para esta obra por Suazo, os alunos vestidos de preto mantêm em órbita suas esferas, recreando assim um complexo sistema planetario onde cada um representa durante uns momentos ao mítico Atlas.
As obras de Restrepo têm a costume de alterar a orden das coisas. Não são só simples pinturas que podemos observar desde uma distância segura daqui até a parede. São obras que nos deixam perguntando-nos onde fica a linha entre a obra e o público si é que esse limite existe… O participante, com todas suas emoções, gestos e mímicas, e absorvido pelo agujero negro do happening e ve-se livre de preocupações encarnando na experiencia da arte coletivo onde o público e a obra voltam-se um só.
Desde o ponto de vista do documentador (questionavelmente o único na posição de observador) vejo claramente como o esforço individual de cada aluno para manter a bola flutuando vai-se entrelaçando numa coreografia de caos ordenado e integra-se nas pulsações da composição de Suazo que emana o latir sincopado do coração deste miniverso.
Sabe-se que na arte conceitual o principal é a idéia, e a execução neste caso particularmente efímera sirve de fugaz veículo para o conceito. O mestre Restrepo fazendo duplo papel de professor e artista, vale-se desta ferramenta subutilizada e comummente reservada para uma pequena (e no caso de Honduras diminuta) elite intelectual, para ensinar aos seus alunos. Um aprende conceitos, os memoriza, alguma vez até os aplica, mas este tipo de experiência conduz a uma interiorização completa da idéia, de modo que se volta parte de um como os ossos e a pele. Porém que idéia estamos encarnando aqui? E com que fim?
Os humanos termos caminhado sem responsabilidade e sem consciência sobre a faz da Terra. Estamos mudando o planeta ao extremo de voltar-lo inóspito até para nos mesmos.
O documento fotográfico faz constar a esperança, a expectativa e o asombro com que o aluno solta a bola e a segue com o olhar ao longo da sua órbita, esperando ela voltar a suas mãos, para lança-la novamente. A despeito do cansaço, da dor de colo, da monotonia, das falhas na pontaria, nesse momento a responsabilidade e a preocupação pelo destino dessa bola as vive en carne e osso cada um.
O aluno acaba exhausto, expressando um renovado respeito pela natureza e o universo, e com palavras que todos conhecemos, mas com um brilho nos olhos que mostra um profundo entendimento de esta idéia ancestral, dize: “nas mãos dos jovens está o destino do planeta.”
Zamorano, San Antonio de Oriente, octubre 27 de 2008
Tradução: Raúl Albanece
Os textos e as fotografias desta paginam podem ser copiados parcial ou totalmente por qualquer usuário para fins acadêmicos e de aprendizagem, ou para uso pessoal, sempre que não tenham como finalidade sua comercialização. Agradecer-se-á o envio de citas e copias de textos sobre onde e quando foram utilizados. O artista pode fornecer copias de algumas fotografias em alta resolução com solicitude expressa.